A intervenção
1 hora atrás


Eu me perdi, quando te perdi. Eu disse: “Vá, que já não o posso guardar!”. Não podia, realmente não podia. Você era grande demais para caber no meu peito, para circular confortável pelas minhas veias, ou abrir caminho pelos meus poros. O soltei no ar, como quem assopra bolhas por um tubo de caneta. E você saiu dos meus pulmões e se coloriu com o azul do céu, ganhou um arco-íris em seu corpo. Subindo e subindo e subindo. Prolongando a distância que ficava atrás, foi além das árvores, foi além do céu. Foi além de mim, deixando meus dedos esticados, sem os molhar com sua beleza. Você acreditou que eu queria que se fosse, e se foi. Deixou-me pra traz, com o aceno sem resposta. Com a saudade sem solução. Com o amor e a adoração.
- E se minhas mãos fossem as suas, o que você faria? E se meu corpo fosse o seu, o que você faria?
Você me disse. Eu as recolhi em meus dedos, e as vaguei por mim, as fiz descobrirem o que eu conhecia. As deixei permearem meu corpo, até eu me afogar nas conchas perdidas, nos sulcos cansados de suas palmas. Senti você jorrar sobre mim, me encobrir, com seus rios quentes e luminosos. Foi sol, foi lua. Passando pelos meus cabelos, dando cor, fazendo sombra em mim. Deitar-me em você, era deitar sobre nuvens, e ver a candura de sua pele escurecer entre minhas pálpebras. Dormia no teu coração doente. Mas eu seguia tranqüila pisando na terra dos seus olhos, inconsciente, inconsistente.
Penso em você, mas queria que pensar resolvesse a saudade. Percorro o mundo, com o chão devorando meus pés descalços de louca desiludida. Caminho olhando o alto, como se você tivesse alcançado as estrelas, e agora, ficasse me olhando, esperando eu reconhecer teu brilho. Reconheço. Entretanto, sei que não está lá. Porque o derrubei com meus desejos e segui teu rastro, para te amarrar na minha garganta, te afogar na minha saliva. O coloquei onde queria que continuasse... em mim.
Queria que você tivesse parado no telhado, arrebentado na madeira da varanda, e que seus respingos tivessem caído em meus braços. O vento não teria te carregado no colo, até sabe se lá onde. E eu teria te apartado... você teria me apartado. Do desvario, da pressa de não ter medo. Hoje sou sombra da tua sombra. Sou rastro da tua luz. Somos verso de um poema. Agora, você é uma voz ausente de um sonho distante. Ressoando prolongado e ébrio em todos os cantos, amparada pelos móveis ou dispersa pelo vazio, se dissipando em eco. Ela é o que sobrou de você, que me deixava como fumaça suspensa no ar. Como um vaso com flores murchas, se erguendo com o esplendor do amanhecer.
Do pó que sobrou na minha memória, arranco lindas tardes, que parecem mais lindas. As passávamos caminhando entre canteiros de flores, no meio das orquídeas e das samambaias, que despencavam sobre os tijolos à vista, ou então se esticavam da terra, com o ventre colorido, aberto para as nossas pernas. Elas tinham perfumes de cores. Lembro-me, que quando nos deitávamos sobre as folhas de plátanos, ficávamos com os corpos coalhados, de sombras e sois que fugiam pelos vãos dos galhos quase nus das árvores. E se eu recostasse minha nuca em teu peito, podia ver tua brancura espalhada entre as orquídeas coroadas com luz.
Meu Deus! Deve ser por isso que tenho tantas orquídeas em casa! Deve ser por isso que todas são brancas e lhes faltam vasos, são tantas, que meu quintal parece um inverno. È por você que lhes dou água e aparo as raízes podres. Ao menos, elas te devolvem a mim nas tardes quentes, quando as pétalas soltam seu vapor cheiroso. O teu vapor cheiroso! Que fico respirando, com medo que uma brisa o disperse.
- Você é descanso, Amélia! Você é descanso...
Você dizia quase adormecido. Mas era você o meu descanso, eu era só tua cúmplice na solidão. Sempre que você adentrava meu quarto, com as mãos nuas e os pés descalços, recendendo a lembranças. Eu sabia que, apenas devia lhe envolver em meus braços, e cobrir teu ouvido com minha boca úmida. Eu sabia que, deveria lhe apertar contra meu peito, e abençoa-lo nos meneios das minhas pernas. Você se espalhava em meu quarto, lânguido e pálido como a lua, se demorava mais que ela para partir. Sempre procurando por silêncio, e eu lhe dava em resposta. Mesmo quando você partia, eu não me preocupava. Sabia que o balanço do mundo o cativava, e que quando se extenuasse, voltaria para o meu balanço de oceano.
Entretanto, não terei novamente teus lábios trêmulos, nem teus olhos confusos. Sei disso. Por isso, para que as orquídeas empoeiradas não murchem. Para que elas não se ponham, como o crepúsculo na minha memória. Deixarei essa bolha que soprei, entrar em minhas veias. Como bolhas sopradas por uma seringa vazia, você ira circular confortável pelas minhas veias, abrindo espaço pelos meus poros. Irá se colorir no vermelho do meu sangue. Seu corpo terá a minha cor. E eu poderei me deitar na tua cor de nuvem-branca, e a ver escurecer entre as minhas pálpebras. Dormirei no teu coração doente.

Um sol morno das sete enxaguando os olhos, algumas gotas – resquícios de chuva – se arrebentam contra o parapeito. Mesas, copos, restos de cervejas e sobras de esperança. Uns silêncios esparsos camuflados em murmúrios vizinhos. No meio tempo, entre uma frase e outra, os chilreares dos pneus dos carros preenchem as lacunas. Embora o silêncio dos nossos olhares não fossem preenchidos por nada além de sentimentos. Restaria ali algo, além do arrastar desses no oco fundo das retinas? Não há palavras, só olhares – que me consomem mansos, lentos, saboreando o meu dissolver na língua, como tem feito com a bebida dos copos, como sua retina tem feito com minha imagem.
Dissolvi. Dissolveu... E penetramos no curso da alma, a seguir pela margem observando em busca do fundo. Debruçamos-nos sobre a beirada, como quem se debruça sobre um lago escuro ansiando a areia sob a água. Entretanto, não a alcançamos nos detivemos na superfície apreciando nossas faces manchadas, sem saber quando mergulharemos para tocar o chão.


Era um lugar desconhecido, cujo chão feito de sal estendia-se, cândido e plaino, até o limiar do horizonte, onde o céu tempestuoso misturava-se ao branco dando-lhe uma tonalidade azulada. Exceto por mim, o céu encrespado e o chão rígido; não havia nada ali, absolutamente nada, sequer um ponto, no qual eu pudesse mirar meu destino, para mais tarde alcança-lo e dizer: “Eis aqui o ponto ao qual cheguei.” Mas simplesmente não existia mais nada lá, além disso. O chão, o céu, e eu.
A única coisa passível de ser ouvida ao meu redor, era o arrastar suave de meus pés sobre os grãos ásperos, que preenchiam as saliências dos meus dedos, sendo esfarelados com o roçar entre os mesmos. Embora se visse ao longe, enormes relâmpagos sobreporem às nuvens carregadas, nenhum som timbrava em meus ouvidos, além daquele emitido por meus passos, os outros ruídos se manifestavam silenciosos, caindo no mais insondável abismo, do qual, não poderiam me alcançar.
Por muito tempo caminhei assim, ao acaso, sem ter perspectiva de chegada ou partida, apenas, contemplando a linha uniforme prolongada ante a minha visão. Sobre essa linha pude enxergar as nuvens sendo dissolvidas, pelo precipitar de uma chuva tempestuosa, que não tardaria a me alcançar. E alcançou. Veio tão veloz quanto um furacão. Caia torrencial sobre minhas costas, me dardejava com gotas grossas arrebentando-se contra minha cabeça, de onde escorriam apressadas pelo resto do corpo. Enquanto inundava os poros de minha pele, o silêncio angustiante acentuava a tormenta que perfurava minha alma. Eu não estava em paz.
A tempestade persistiu por muito tempo sobre mim, e eu persisti por muito tempo sob ela. Até o momento em que encontrei um ponto, ao qual pudesse mirar meu destino. Quando o avistei, era apenas uma mancha, um borrão por detrás da cortina liquida, mas com o meu avançar abri espaço entre as colunas de água, e o borrão disforme, tornou-se uma casa, uma pequena casa de madeira, que desfalecia sob o peso do céu desaguando. Busquei com veemência a porta, e entrei.
Em seu interior havia uma ausência enorme de luz, era como fechar os olhos e senti-los abertos. Pude definir algumas frestas na parede, por onde vazava a luz dos relâmpagos, de quando em quando, com pequenos jorros de água. Todo o casebre tremia, o vento forte e os baques mudos dos trovões o chacoalhavam do teto até o assoalho. Permaneci imóvel, diante da porta, por um longo tempo, não sei ao certo quanto, mas o suficiente para saber que além do cômodo no qual estava, havia mais um. E com um pouco mais de tempo, notei quadros pendurados por toda sala, de uma porta a outra, distribuídos por todas as paredes. Dei alguns passos na direção oposta, rumo à porta do quarto contíguo. O espiei, e lá também havia quadros por todos os lados. Espremi as pálpebras, aproveitei a primeira claridade, e enxerguei minha vida exposta naqueles retratos, eram memórias esvaziadas da minha cabeça enchendo meus olhos. Reconheci minhas lembranças, e elas me reconheceram. Olhavam-me felinas e frias, dissimulando compaixão. As fitei atônito, pasmo, confuso, louco; as observei com sensações. Porém, o intervir de meus olhos turvos, angustiou meus “eus” emoldurados, que entreabriram os lábios, para exprimirem seus gritos, seus arfares, seus gemidos. Encolhi-me ensurdecido pelo tumulto de todos aqueles sons dispersos, que com tal força me derrubaram ao chão, por todo aquele tempo, indefinido, ao qual fui subjugado não pude pensar em nada, entretanto, o caos abriu espaço à tranqüilidade, graças a uma voz sussurrada que rompeu delicadamente a surdez:
- Contemplai teu passado! Contemple-o, faça-o humos para a terra que enraizará árvore forte, assim, não essas, mas outras dores a derrubarão. Terás uma terra fértil para as alegrias, e estéril às mazelas, para que nenhuma semente apodreça sem se ter extraído sua essência. – era uma voz familiar ecoando do nada, após um longo tempo a reconheci minha, e após um tempo maior ainda compreendi o significado carregado nessas poucas palavras.
E o contemplei na mansidão que se fez, na chuva e nos ventos apaziguados, nos retratos, agora mais sinceros. Em tudo, desde que tudo se tornara inofensivo. E ali, naquele casebre no meio do nada, por horas, relembrei cenas, reencontrei caminhos, até meus olhos se cansarem, até meu corpo se entregar ao chão molhado, e meu pensamento parar de transitar por aqueles quadros, lentamente adormeci. Ao acordar, encontrava-me embrulhado em meus lençóis, na mesma cama em que dormia todas as noites e acordava todos os dias. Confuso, mas em paz.
Mais uma pedra de gelo batendo na lateral do copo. Mais um gole, para escorrer goela abaixo, para lubrificar o nó que não desata. Olhou, desatento, a porta que não parava fechada, havia gente entrando e saindo daquele boteco, o tempo todo, sem dar descanso aos olhos sonolentos. Mais um gole para umedecer o rosto fino fixado na memória. De vez em quando passava a mão na barba rala, ou ajeitava os cabelos armados. Tudo estava justo, tudo estava confuso, mas estava certo, havia de ser assim, ficar só, entalhando outro nome na madeira do balcão de um boteco. Esperava que alguém o dissesse o que fazer, ou que o mandasse parar ao menos.
Sem saber exatamente onde encaixar o “não” adocicado, que despencara daquela boca, já intima a um longo tempo. Aquela boca que percorreu seu peito, que acompanhou o roçar das coxas, o embaraço dos cabelos; aquela boca que ferveu sua pele em muitas noites. Mas, apesar de tudo, aquela boca que o recebeu alegre e disse um dia que o amou. Ele sabe bem que as coisas são assim, o que sobra é os dedos, as digitais, os arranhões e as mordidas, os borrões no colarinho da camisa com um botão perdido.
Whisky molhando imagens, calando pensamentos. Em um esforço para amenizar a dor na cabeça, apertou os indicadores contra as têmporas, espremendo os olhos. Molhou os lábios, a língua dela os margeou. Ajeitou o cabelo atrás da nuca com os afagos da mão dela. Olhou ao redor apreensivo, desconfiado. O mundo rodava lento e ruidoso. Começou a conjeturar nos sorrisos, olhares, vozes e cenas; sentiu-se no centro do tumulto, daqueles rostos que preenchiam espaços no bar; transformando-o em um grande cinzeiro, engolido por fumaça, os cigarros embaçavam a zoada das vozes. Em meio aquela confusão rodopiando em sua cabeça, ele ouvia vozes, que lembravam a dela, sentiu sua mão macia percorrer-lhe o corpo. Diante de todo alvoroço dentro de si, deixou escapar um berro em negação.
Quis ir embora. Então, levantou-se do balcão jogando o dinheiro ao lado do copo e foi saindo às pressas, entretanto, esbarrou na quina de uma mesa, caindo ao chão, e ainda derrubando um a bebida sobre o colo da ocupante da mesma.
- Ah, seu imprestável! Olha por onde anda! – pôs-se ela em pé, abanando a camiseta e gritando furiosa.
Uma cena recente escalou o poço de seus olhos. Voltaram diante deles, aquela mesma frase, aquele mesmo tom, e aquela mesma raiva em outro rosto. Tão logo, viu-se atracado aquilo novamente, com toda essa desordem tomando o norte de suas ações. A sua volta uma multidão de olhos e de bocas risonhas e sarcásticas. Todos eram um borrão na sua retina, todos eram o borrão do seu colarinho. Algumas pessoas tentaram levanta-lo, foram repelidas, seu corpo sentiu naquelas mãos as outras mãos, as delicadas que o incendiavam.
Alcançou a porta assim que pode, ganhou a rua, mas não se livrou de sua sombra, que continuou rodopiando em sua mente. Seguiu pelas calçadas com o chão ondulando sob os pés, apoiando-se nas paredes, nos muros, nas vitrines. Esquivando-se dos carros, foi-se enjoado, inquieto, pelo curso das ruas. Com a boca seca, estremecendo de raiva e amor.
Parou diante de um elevado. Apoiou as costas na proteção, observou passível, a rua iluminada com a sombra do sol esbarrando nos edifícios, logo seria a lua. O pavor aguçava o cambalear das nuvens no horizonte. Suas pernas trêmulas pensavam em andar um pouco mais. Recolheu o suor das faces com as mãos frias, olhando para os dois lados da calçada. Afrouxou o nó da gravata, e saltou sobre a proteção, suas pernas balançaram mais, sua espinha congelada sincronizou-se com o horror nos olhos. A distância não o permitia ver aonde acabaria a queda, a vertigem foi se prolongando rapidamente.
Respirou fundo e jogou-se.
- Merda! – praguejou aos prantos, com a bunda plantada na calçada – Ela tinha razão! Nem para me matar presto!

Ainda espero o presente que o futuro me dará, e sei que ele virá através dos seus olhos! Acredito nessa promessa sussurrada em algumas conversas surdas que travo com o tempo no silencio da escuridão do meu quarto. Minha certeza se faz fruto dos seus acertos, das suas adivinhações distraídas, que de tão certeiras me varam o coração um zilhão de vezes sem pedir licença ou desculpas, apenas me fazendo ama-la mais e mais.
Em muitas dessas conversas, peço para que ele me faça pequeno, tão minúsculo quanto um grão de areia, ou um átomo de matéria; só para deslizar para dentro da sua caixinha de felicidades, aquela na qual você guarda todas as coisas boas que pairam suspensas no mundo; e para que mais tarde quando você menos souber de minha existência adormecida, eu possa explodir em milhares de partículas feitas para vibrar cada fibra do seu coração e iluminar cada camada dos seus olhos. Quero me fazer motivo dessas reações e consolo para as desolações, tão certo disso quanto a nossa própria existência.
Às vezes sinto uma súbita vontade de crescer quando ouço você falar sobre o céu e seus sonhos, sua certeza do destino e não do caminho! Então, juro longe de seus ouvidos, apenas nos meus devaneios, que construirei escadas para o céu, pontes para a felicidade, e trens para o infinito; que rumarão vencendo as distâncias do mundo sem paragem, sendo movidos unicamente pela graça de seus desejos, assim como me movem através dos meus dias mais aziagos e tristes, na esperança de que mais tarde venham a se entremear com o descanso de sua presença. E quanto mais eu sei ao certo o quanto esse amor é sincero, mais o sinto largo em minha alma, e assim nem cabendo em mim e nem em seus olhos, ele se propaga amplo e disperso pelo mundo.

Tenho andado muito com você dentro de mim. Antes assim, de outra maneira poderia te perder entre as plataformas rodoviárias, nas multidões dos aeroportos, ou te esquecer sentada em um banco de praça. Carregando-a do lado de fora poderia ir-se embora, até mesmo, flutuando dentro de uma bolha de sabão, ou sendo carregada, como lembranças, em um barco de papel por um rio de águas diáfanas a perder-se de vista no horizonte.
São essas minhas crises de existência, que fazem eu te guardar dentro de mim, ou no mel dos teus olhos observadores, que me enxergam como quem vê a lua diante de si não crendo em poder tê-la para sempre. Mas sim, vou estar sempre nos meus suspiros de veleidades ouvidos em silêncio.
Meu Deus, você me faz fissuras, mulher! E vai me trincando por inteiro, palmo a palmo, com a piedade de quem ama sem controle, de alguém que mata cem homens sem ao menos piscar ou pestanejar. Eu apenas não venho compreendendo nada. Nessas minhas calvices de pensamentos, tenho sentido mais meus sentimentos, eles são mais nítidos que as idéias rachadas no topo confuso da minha cabeça. Tenho te procurado mais nas línguas novas que conheci, e nos corpos que apertei em meus braços, mas só você, apenas você, foi quem estreitei em meu coração, tentando dar-lhe casa e cobertor. Tentando ser eu mesmo em um mundo que pede farsas.
